Fender Stratocaster e Gibson Les Paul – o projeto da guitarra e a produção industrial

Vou discutir aqui alguns aspectos do projeto das duas principais guitarras elétricas[bb] solid-body (corpo maciço) produzidas industrialmente, a Fender Stratocaster e a Gibson Les Paul. Projeto no sentido usado em arquitetura e design, como a concepção da forma. Esta comparação entre as duas será apenas do ponto de vista da produção industrial, de modo que as conclusões aqui tiradas não têm nenhuma relação com a sua qualidade sonora.

Traçando rápido percurso histórico, percebemos uma diferença de início: a Gibson foi fundada em 1902, como uma manufatura de instrumentos acústicos, ainda de maneira artesanal. A Fender foi fundada em 1948, como uma fábrica de instrumentos elétricos, já visando uma produção em massa.

O surgimento da guitarra elétrica data aproximadamente da década de 30, com alguns modelos Rickembacker, que ainda eram violões[bb] com captadores[bb]. Até a década de 50 as guitarras elétricas desenvolveram-se em torno dos violões, com caixas acústicas, sendo um dos maiores avanços a criação do cutaway. A Gibson se tornava reconhecida pelas suas guitarras archtop (semiacusticas), com captadores magnéticos.

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Em 1950 foi lançada pela Fender a Telecaster[bb], na época ainda chamada Broadcaster, e uma variação simplificada, a Esquire. O objetivo deste projeto era construir uma guitarra solid-body em escala industrial, a preços acessíveis. Veremos mais adiante algumas inovações deste projeto, mantidos na Stratocaster.

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Em 1952, em resposta ao sucesso da Telecaster, A Gibson lançou a Les Paul[bb], modelo que havia sido desenhado pelo guitarrista homônimo. O guitarrista já havia criado um protótipo de guitarra solid-body, chamado “The Log”, que alguns consideram como a primeira guitarra solid-body, e já havia levado esta idéia até a Gibson, mas fora rejeitado. A Gibson fazia questão de ser uma manufatura de instrumentos de qualidade, e considerava tal projeto um desvio de seus princípios. Com o sucesso das Fender Telecaster, o projeto Les Paul foi reconsiderado. Posteriormente a Gibson incorporou a idéia, lançando a SG, e modelos mais ousados de solid-body, como a Explorer e a Flying-V.

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Em 1954 foi lançado pela Fender aStratocaster[bb], projeto que ainda hoje é considerado um paradigma de guitarra elétrica. Pode-se dizer que esta guitarra é um desenvolvimento da Telecaster, pois incorpora muitas de suas inovações, e introduz algumas melhorias. Os princípios da Stratocaster também foram aplicados nos Precision Bass e Jazz Bass, projetos de baixo também paradigmáticos.

Para entender as diferenças dos projetos de cada uma, passaremos por alguns itens de cada uma.

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Primeiro vamos analisar o corpo de cada uma. A Les Paul tem um corpo com top abaulado, além de ser de madeira diferente. Para sua produção, é necessário colar as duas partes e, além do corte do formato, é necessário o arredondamento do top. O acabamento das quinas é todo em binding (aquela faixa em toda a borda), deixando a quina viva, mas em outro material, que receba melhor os impactos. Este processo é uma etapa ainda bastante artesanal.

A Stratocaster por sua vez tem o corpo plano, em uma peça apenas, o que simplifica a produção em escala, pois necessita menos etapas de usinagem. As únicas partes não planas são os chanfros para o apoio do braço e do corpo, introduzidos como uma revisão em relação à Telecaster. A borda do corpo é todo arredondado, na própria madeira, processo que pode ser feito com uma tupia, muito mais rápido que um binding.

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Outra diferença importante é a presença do escudo (pickguard) nas guitarras Fender, que servem como um acabamento. Como o escudo cobre as cavidades da madeira (na Telecaster em duas partes, o escudo e o control plate; na Stratocaster apenas um escudo), é possível trabalhar com alguma folga nas dimensões. Os encaixes de captador, potenciômetros e jacks estão todos no plástico (e no metal, no caso das Tele), que são de usinagem mais fácil, de maior precisão portanto. A Strato ainda simplificou no desenho das cavidades em relação às Tele, mudando o jack da lateral para o escudo, e juntando todos os captadores “à ceu aberto” (fresado) e não por “túneis” (furadeira), resolvendo assim todo o espaço da elétrica em apenas um processo de usinagem.

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A Les Paul não possui um escudo como as Fender, que esconde as cavidades, apenas um escudo que protege das palhetadas (pickguard no seu sentido literal), que pode ser retirado sem prejuízos estéticos, ao contrario das Fender. Desse modo, as cavidades na madeira devem ser mais precisas, para um encaixe exato. Além disso, possui jack na lateral e acesso à elétrica por trás, de modo que são necessárias pelo menos três etapas para a usinagem de todo o espaço da elétrica.

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O braço e a escala também trazem diferenças significativas. A primeira diferença é o tipo de encaixe. A Les Paul é glued-in neck (colado), e a Strato é built-in neck (parafusado). À parte qualquer especulação sobre a qualidade sonora, estas duas opções trazem diferenças construtivas importantes.

O braço parafusado das Fender foi adotado pela maior facilidade de construção e manutenção. Facilita a construção por que a junta não precisa ser exata, ao contrário do braço colado (até hoje ainda é necessário um ajuste fino artesanal para a colagem dos braços das Gibson), e a manutenção, por que permite a troca em caso de algum problema. A Fender também simplificou a construção, transformando o braço em one-piece (uma peça de madeira apenas), ainda que atualmente seja mais comum a escala separada.

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Além disso, o braço da Les Paul é angulado, o que demanda maior precisão, enquanto o da Strato é plano, de modo que, se perde em conforto, ganha em agilidade na produção, uma vez que as máquinas trabalham a partir dos eixos ortogonais.

Assim como no corpo, o braço das Gibson recebem binding, acabamento novamente dispensado pela Fender. Além disso, a marcação das Les Paul tradicionalmente são trapézio em madrepérola, enquanto a Strato (assim como a Tele) optou pela bolinha de plástico preta, nos primeiros modelos de escala clara em Maple. A bolinha pode ser feita com uma broca simples, enquanto o trapézio é artesanal.

Por fim, um detalhe interessante: a ponte tremolo da Strato, com seus saddles (carrinhos), permitem maior extensão de ajuste que as ponte tune-o-matic da Les Paul. Inclusive, a tune-o-matic foi introduzida posteriormente ao projeto da Les Paul (1954), que até então tinha uma ponte fixa com Tailpiece, que remonta à sua origem na guitarra semiacústica, e que não permitia ajustes. Mesmo a tune-o-matic permite pouco ajuste, de modo que o posicionamento na construção deve ser mais preciso (levemente inclinado). As pontes da Fender, tanto da Tele quanto da Strato, são posicionadas perpendicularmente às cordas, e o ajuste é feito nos carrinhos, o que permite maior rapidez na produção.

A partir destes aspectos, fica evidente a diferença de princípios entre as duas Fabricantes. A Gibson, com sua origem manufatureira, preza pela qualidade artesanal, pelo acabamento e conforto, enquanto a Fender partiu da racionalização do projeto, visando uma produção em escala. Atualmente existem tecnologias de produção muito mais avançadas, que permitem uma execução mais rápida e precisa, atenuando muitas destas diferenças aqui apontadas (pense no que significava isto tudo na década de 50). Mas essa opção pela racionalização ou pelo artesanal ainda existe. Não à toa encontramos no mercado um maior número de versões econômicas de Stratos do que de Les Paul. O projeto da Fender permite um maior barateamento, devido à sua simplicidade, enquanto a Les Paul exige alguma precisão a mais, de modo que quando simplificado nas versões econômicas (braço parafusado, corpo plano), é mal visto.

Escrito em 2007.

originalmente publicado em:

http://forum.cifraclub.terra.com.br/forum/3/168990/

quase todas as imagens foram extraídas destes vídeos:

visita à fabrica da Gibson

visita à fabrica da Fender

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8 Respostas to “Fender Stratocaster e Gibson Les Paul – o projeto da guitarra e a produção industrial”

  1. Fulgore Says:

    muito bom este artigo, realmente a questão do conforto é indiscutível.

  2. fernando Says:

    gostaria de obter um projeto da les paul pois tenho vontade de fabricar minha propria guiatarra é posssivel

  3. Bira Says:

    entre nesse site ai váem projetos e la vc terá muitas plantas inclusive les paul
    http://www.4shared.com/dir/1776809/47eb7b5f/sharing.html
    abçs…

  4. Fábio Says:

    Nossa fiquei bobo com os videos, a Fender é feita praticamente inteira por máquinas industriais, isso é péssimo porque quando as maquinas começam a se desgastar é onde começa dar problemas nas guitarras, e ai as vezes pode acontecer de sair muitas guitarra defeituosas ou até um lote inteiro.

  5. Os números de 2010 « kikipedia Says:

    […] Fender Stratocaster e Gibson Les Paul – o projeto da guitarra e a produção industrial maio, 2009 5 comentários 3 […]

  6. ju Says:

    Sou Musico guitarrista e hoje particularmente uso fender stratocaster em maple , porêm já tive les paul. Gostaria de Parabenizar este site pelas informações prestadas e fazer uma observação com relação ao custo e barateamento das guitarras les paul , hoje já podemos encontrar diversas marcas de boas le paul com braço colado a um preço extremamente barato aproximadamente R$ 500.00reais graças a máquinas de produção , sendo que hoje a escolha é mesmo pelo timbre e não tanto pelo preço.

  7. Herbert Santana Says:

    Herbert Santana, musico guitarrista e luthie ,parabenizo este site ; fanatico por guitarra e muito importante saber de onde e como e feito este maravilhoso instrumento

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